| Terapia Psico-Corporal Integral | |
Terapia PsicodinÂmica e Terapia Psico-corporal |
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Andreas Wehowsky PROKompetenz GmbH, Jaderberg, Alemanha |
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| Resumo/Abstract | |
| Acerca da história da relação corpo/psique | |
| Raízes históricas da Terapia Psico-Corporal | |
| Acerca da Psicologia Integral de Ken Wilber | |
| Os níveis da personalidade na Teoria Interacções Sistema-Personalidade (Teoria PSI) de Julius Kuhl | |
| Acerca da noção central de motivação | |
| Acerca da noção de estrutura | |
| Intervenções não-verbais e mudança de afecto | |
| Bibliografia |
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| Abstract | ||
The article reflects the history of body and mind in Western civilisation as one of many splits and dualisms which had also manifested in the problematic relationship between psychoanalysis and bodypsychotherapy (bpt). The roots of bpt in modern times go back to different sources such as Pierre Janet, Wilhelm Reich and the arts. Thus there has developed a lot of fruitful diversity in the field of bpt which can be integrated by refering to major integrative theories. The Integral Psychology of Ken Wilber and the PSI (Personality-Systems-Interaction) Theory of the German Professor Julius Kuhl are used to accomplish this task. Based on these theories especially categories like motivation and structure can demonstrate the factual close link between bpt and depth psychology against all historic fractions. Finally, the richness of interventions which span across all levels of personality show the attraction which bpt provides for an efficient psychotherapy. |
The article reflects the history of body and mind in Western civilisation as one of many splits and dualisms which had also manifested in the problematic relationship between psychoanalysis and bodypsychotherapy. |
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| Raízes históricas da Terapia Psico-Corporal | ||
| As raízes históricas da Terapia Psico-Corporal, tal como
as suas escolas actuais, são múltiplas. Muitas escolas
estão na tradição de Wilhelm Reich e algumas foram
criadas por seus alunos/as directos/as. A European Association for Body-Psychotherapy
(www.eabp.org) está marcada por esta tradição, sendo
ao mesmo tempo aberta a outras correntes. No interior da tradição
reichiana, a vegetoterapia ocupa um lugar paradigmático. Foi aqui
que se criaram as bases de uma compreensão das correspondências
funcionais entre corpo e psique, em oposição ao dualismo.
Faz parte do fenómeno-espelho que, justamente no momento em que
Reich desenhou a sua integração fundamental entre corpo
e psique, ele próprio foi excluído da Associação
Internacional de Psicanálise (1934). Assim, o dualismo entre corpo
e psique pôde ser mantido por mais algum tempo.
A lenda de que a Terapia Psico-Corporal seria, sobretudo (e devido a Reich) filha da Psicanálise, ainda que rejeitada, não é bem verdade. Poder-se-ia argumentar, pelo contrário, como fez David Boadella (1997), representante importante da Terapia Psico-Corporal, que a Psicanálise, pela sua sua parte, teve um antepassado, Pierre Janet (1859-1947), professor de Psicologia francês. Os seus estudos acerca da respiração, da circulação, dos fluídos no corpo, da tensão muscular, dos processos formativos do corpo no seu crescimento, da relação entre processos viscerais e sentimentos, do comportamento de contacto, do movimento e da intenção e, sobretudo, acerca das síndromas de choque pós-traumático (PTSD) fizeram dele o verdadeiro pai fundador da Terapia Psico-Corporal. Freud e Breuer foram influenciados por ele, tal como C.G. Jung e Alfred Adler. Mais tarde, na sua própria teoria, Freud viria a recusar a importância não só das traumatizações reais evidenciadas por Janet, por exemplo, em consequência de abuso sexual, mas desistiu também do trabalho directo com o corpo que se mostrou, para ele, demasiado intensivo. Hoje em dia, sobretudo com o debate crescente em torno do stress pós-traumático, Janet reemerge como um pioneiro muito relevante. Outras raízes da Terapia Psico-Corporal encontram-se em áreas bem mais afastadas e fora do campo da própria Psicoterapia. Desde o séc. XIX e mais intensamente no início do séc. XX, o corpo foi alvo de uma nova atenção em muitas áreas, entre as quais, o trabalho de teatro, a pedagogia musical, a dança expressiva, a ginástica e a pedagogia corporal. Daí que muitas pessoas, também a partir do seu próprio sofrimento, dedicaram-se a um estudo intensivo do corpo humano, tendo nascido uma forte tradição de terapia corporal. Embora muitas dessas escolas não possam ser entendidas como psicoterapêuticas em sentido restrito, houve influências recíprocas fortes entre as tradições de terapia corporal e de Terapia Psico-Corporal, sobretudo em Berlim, antes de 1933 – a ascenção de Hitler ao poder, cidade que equivalia, naquela altura, a um grande laboratório de correntes que se fecundavam reciprocamente. É significativo que, neste processo, se foi criando uma imagem do corpo que o libertou do canto moralista de sujidade e descobriu, em vez disso, as possibilidades de uma inteligência somática lata, o que foi denominado de autenticidade. É verdade que esta nova antropologia foi ciclicamente interpretada como perspectiva de cariz romântico e regressivo, como natura versus cultura, e que essa interpretação teve algum impacto na história da Terapia Psico-Corporal, mas isso não deve desviar de reconhecer o enorme avanço que estes desenvolvimentos representaram (Wehowsky 1997b). Mencionei os inícios da Terapia Psico-Corporal, não só para ilustrar os seus relacionamentos com a Psicologia Dinâmica desde o início, mas também para despertar no/a leitor/a a ideia da multiplicidade e riqueza desta tradição. Inclui muitos níveis e facetas cuja integração, no percurso da formação profissional, exige o seu tempo. Um/a bom/a psicoterapeuta corporal tem que ser capaz, além da sua ferramenta psicoterapêutica geral, não só de se aperceber das muitas modalidades da corporalidade, mas também de saber trabalhar com elas em experiência directa e ainda com integração verbal. A integração de destas diferentes dimensões num único processo psicoterapêutico exige competência de percepção e capacidade de intervenção multi-modais. |
As raízes históricas da Terapia Psico-Corporal, tal como as suas escolas actuais, são múltiplas. Muitas escolas estão na tradição de Wilhelm Reich e algumas foram criadas por seus alunos/as directos/as. A European Association for Body-Psychotherapy está marcada por esta tradição, sendo ao mesmo tempo aberta a outras correntes. No interior da tradição reichiana, a vegetoterapia ocupa um lugar paradigmático. |
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| Acerca da noção central de motivação | ||
Aqui, chegamos ao fulcro da depth psychology [1]. Segundo Kuhl, esta noção inclui tanto os processos elementares da motivação de estímulo como as disposições motivacionais mais complexas. ‘Motivação’ descreve, por um lado, as ligações entre cognições e conteúdos de vontade e, por outro, a activação geral ou a energia, as necessidades e a motivação de estímulo, motivação esta que assenta em afectos elementares, como por exemplo, prazer ou desprazer. Se esta área fulcral da depth Psychology representa, ao mesmo tempo, a interface entre corpo e mente, então esta noção pode também ser utilizada como pivot para a integração entre a depth psychology e a Terapia Psico-Corporal. Seguindo esta linha de pensamento, rapidamente se encontram correspondências na Terapia Psico-Corporal. Para mencionar apenas um exemplo, a Terapia Psico-Corporal sempre teve a intenção de, através do corpo, chegar à motivação intrínseca e muitas vezes inconsciente de uma pessoa e, assim, criar as bases de uma auto-regulação autêntica gerida pelo self. Isto em oposição à predominância de motivações extrínsecas inflitradas que se, por um lado, podem desenvolver o auto-controle, por outro, no conflito com o inconsciente motivacional, barram o acesso a um self auto-regulador. A área fulcral da motivação descreve a integração entre corpo e mente de um indivíduo sempre no contexto da sua inserção nas relações sociais e culturais. Descreve até que ponto a pessoa consegue desenvolver, na história do seu relacionamento social, suficiente autonomia para manter uma motivação intrínseca para uma progressiva auto-regulação como motor do seu crescimento. Esta história pessoal tem por base, sempre, o conflito entre autonomia e dependência enquanto desafio. Ao passar pelas diferentes fases de desenvolvimento, os temas específicos e os seus possíveis conflitos são actualizados. |
Aqui, chegamos ao fulcro da depth psychology. Segundo Kuhl, esta noção inclui tanto os processos elementares da motivação de estímulo como as disposições motivacionais mais complexas. ‘Motivação’ descreve, por um lado, as ligações entre cognições e conteúdos de vontade e, por outro, a activação geral ou a energia, as necessidades e a motivação de estímulo, motivação esta que assenta em afectos elementares, como por exemplo, prazer ou desprazer. |
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| Acerca da noção de estrutura | ||
| Passamos, então, da noção de motivação para a de estrutura em que o conceito de defesa ocupa um lugar central para a depth psychology. No fundo, a noção de defesa dissolve-se quanto mais desenvolvida for a auto-regulação e deveria, então, ser substituída pelo conceito de capacidade de resolução das situações da vida. No entanto, faz sentido falar de defesa quando a intensidade e a duração temporal de estados afectivos não podem mais ser toleradas nem geridas. A psicoterapia encontrou, para isto, três causas principais: conflito, défice e trauma de choque. Destas, nascem fixações em estados que levam a limitações crónicas e estruturais das capacidades de auto-controle e auto-regulação. Faz parte dos argumentos centrais da depth psychology a explicação dos distúrbios na auto-regulação pelos distúrbios na vinculação. Os efeitos destes distúrbios são tanto maiores quanto mais cedo e profundamente acontecem na vida das pessoas. Isto significa também que os distúrbios mais precoces têm origem na fase pré-verbal. Só mais tarde, surgem os estados de simbolização verbal e visual com as possibilidades de resolver aqueles distúrbios enquanto novos podem surgir. As investigações recentes, por exemplo de Allan Schore, mostram que o próprio processo de vinculação baseia-se em transacções reguladoras entre a figura significativa e a criança. Daí, nasce o self nuclear da criança. Resumindo: o self nuclear da criança consiste em padrões não verbais e inconscientes de regulação de afectos que, por seu lado, têm correspondência com regulações somáticas. Os estados afectivos motivam para a vinculação cuja função central é construir e manter níveis interactivos optimais de estados positivos e afectos vitais. |
No fundo, a noção de defesa dissolve-se quanto mais desenvolvida for a auto-regulação e deveria, então, ser substituída pelo conceito de capacidade de resolução das situações da vida. No entanto, faz sentido falar de defesa quando a intensidade e a duração temporal de estados afectivos não podem mais ser toleradas nem geridas. |
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| Intervenções não-verbais e mudança de afecto | ||
Enquanto a psicodinâmica e a psicanálise considerarem a linguagem como a fonte mais fiável de informação sobre a experiência interior, não serão captados com fiabilidade os processos de resolução inconscientes nas diversas áreas subcognitivas – do corpo, da estimulação, das necessidades e dos afectos que, numa primeira fase, não acessíveis pela linguagem. O maior desafio da psicanálise e da psicodinâmica consiste, hoje, em trabalhar com as transferências não-verbais e inconscientes de afectos. Para poder responder a estas transacções afectivas que se realizam através do corpo, é preciso uma afinação, uma investigação e uma comunicação conscientes por parte do/a terapeuta a níveis inicialmente equivalentes. Só assim nasce a base empática para integrar a importância de processos somaticamente afectivos, ao nível da linguagem simbólica. Até agora, a psicanálise e a psicodinâmica sobrevalorizaram as formas verbais e simbólicas de representação e subvalorizaram as formas não-verbais e pré-simbólicas (Moskowitz et al. 1997). Aqui, a Terapia Psico-Corporal joga o seu trunfo, já que sempre foi seu objectivo aprofundar os processos através da facilitação de experiência e fazer com que, desta forma, se tornem conscientes os estados verbais, somáticos e afectivos muitas vezes negados. Enquanto a Terapia Psico-Corporal trabalhava, sobretudo nos anos 1970 e 80, ainda com a noção reichiana de couraça, a forte activação motora de energias reprimidas, no sentido de descargas catárticas, fazia parte das suas intervenções mais importantes. Uma das finalidades desta intervenção visava também um rebound, uma mudança de afectos acumulados, geridos pelo sistema simpático, para afectos geridos pelo sistema para-simpático de luto, de dor negada, mas também de alegria e bem-estar. Hoje em dia, sabemos que estes métodos têm a sua razão de ser, mas levam, frequentemente, à estagnação e são contra-indicados, em muitos casos – nomeadamente, em distúrbios precoces. A ideia base de uma mudança de afecto mantém a sua validade, sendo hoje realizada de uma maneira muito mais diferenciada. Ao mesmo tempo, o comportamento relacional do/a terapeuta tem também mudado. Já há muito que não é o/a perito/a “instrutor/a” que sabe como processos afectivos e somáticos devem ser geridos para conseguir determinados resultados. Tornou-se mais consciente do seu envolvimento em processos participativos, dando maior atenção à transferência e à contra-transferência. Assim, as intervenções ganham em diferenciação e reflexão na relação (Heller 2001). Níveis micro de intervenção ganham cada vez mais importância na investigação actual, onde a atenção não se dirige apenas aos processos subcognitivos no cliente, mas também à interacção terapeuta-cliente. No sentido da regulação através da relação, têm um papel relevante a afinação de ritmos e pausas, o tom de voz, o espelhamento e a dinâmica de posturas corporais e movimentos, os gestos, o comportamento de contacto, como por exemplo, através dos olhos, e o diálogo de processos de respiração. Por outras palavras, trata-se, primeiro, de intervenções não interpretativas que activam, num primeiro nível, as modalidades de processamento do hemisfério direito e contribuem para a flexibilização de um estado previamente rígido. Nestes processos de mudança de afectos através do contacto, trata-se muitas vezes de estabelecer níveis optimais de estimulação, a partir dos quais se pode desenvolver uma tolerância para um aprofundamento afectivo e somático. Ou ainda, na base de modulações que criam acalmia ou aumentam a activação, podem ser mobilizados recursos que são úteis para gerir estados conflituosos ou de difícil tolerância. Nesta perspectiva, a percepção corporal só não é suficiente. A arte da Terapia Psico-Corporal consiste em saber trabalhar com a mudança entre, por um lado, colocar o foco no interior, na percepção afectiva e corporal, e, por outro, colocá-lo na estimulação da expressão afectiva e somática. É esta mudança entre experiência encarnada e acção, em articulação com a interacção verbal, que providencia um papel de relevo à Terapia Psico-Corporal na sua contribuição para um modelo integrativo da psicoterapia. Aqui, vejo também o lugar que a Terapia Psico-Corporal pode ocupar como ponte entre uma psicodinâmica, orientada para uma clarificação motivacional, e uma terapia comportamentalista orientada para uma gestão efectiva do comportamento. A referência às quatro dimensões da realidade de Ken Wilber permite à Terapia Psico-Corporal construir ainda mais pontes para o trabalho sistémico e para a integração de outras investigações, nomeadamenta no campo da neurofisiologia. |
Enquanto a psicodinâmica e a psicanálise considerarem a linguagem como a fonte mais fiável de informação sobre a experiência interior, não serão captados com fiabilidade os processos de resolução inconscientes nas diversas áreas subcognitivas - do corpo, da estimulação, das necessidades e dos afectos que, numa primeira fase, não acessíveis pela linguagem. O maior desafio da psicanálise e da psicodinâmica consiste, hoje, em trabalhar com as transferências não-verbais e inconscientes de afectos. |
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[1] Entendem-se por
baseadas na Depth Psychology aquelas correntes da psicologia
que reconheçam forças motoras do Inconsciente como
necessidades e motivações que, por sua vez, dão origem a conflitos típicos no interior da personalidade. |
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| Bibliografia | ||
Boadella, David (1997): “Awakening sensibility, recovering motility, psycho-physical synthesis at the foundations of Body-Psychotherapy: the hundred year legacy of Pierre Janet (1859-1947)”, International Journal of Psychotherapy, vol. 2, nº 1, 45-56. Heller, Michael (ed.) (2001): The Flesh of the Soul: The Body we work with. Berne: Peter Lang. Kuhl, Julius (2001): Motivation und Persönlichkeit. Hogrefe. Moskowitz, M.; Monk, C.; Kaye, C.; Ellman, S. (eds.) (1997): The Neurobiological and Developmental Basis for Psychotherapeutic Intervention. Londres: Jason Aronson. Wehowsky, Andreas (1997a): “Entwicklung und Entdeckung”, Energie & Charakter, nº 14, Berlim. –– (1997b): “Konzepte der Erdung, Energie & Charakter”, nº 15, Berlim. –– (1998): “Zur Selbstverständlichkeit der Körperpsychotherapie”, Energie & Charakter, nº 17, Berlim. Wilber, Ken (1999): “Integral Psychology”, The Collected Works of Ken Wilber, Vol. 4, Shambhala. Wilkinson, Heward (1999): “Pluralism as scientific method in Psychotherapy”, International Journal of Psychotherapy, vol. 4, nº 3, 313-328. |
Bibliografia |
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In Revista de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do Porto, III série, Ano XXIV, no. 3/4, Julho-Dezembro de 2003, p. 86-95. Traduzido do alemão por Thomas Riepenhausen (Asas e Raízes, Terapia e Formação Lda., Porto, Portugal) e Maria José Magalhães (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto). |