Constelação Familiar
 
 

Tipos de Traumas

 
Franz Ruppert
 
 

Almas Confusas. O Significado Escondido das Psicoses.
Esboço de uma Psicotraumatologia Sistémica.

   
Título original: Verwirrte Seelen. Der verborgene Sinn von Psychosen.
Grundzuege einer systemischen Psychotraumatologie.
Ed. Koesel. Munique: 2002.
   
 
Extractos:
 
Tipos de traumas psíquicos
Padrões de sintomas de traumatização psíquica
 
Tipos de traumas psíquicos
 

Proponho-me distinguir quatro tipos de traumas:

— traumas existenciais;

— traumas de perda;

— traumas de vinculação;

— traumas de vinculação sistémica.

No trauma existencial trata-se de sobrevivência, as pessoas em questão vêem a sua vida e a sua saúde bem como a manutenção das suas bases materiais ameaçadas. Um trauma existencial é, p. ex., provocado por um acidente de viação ou de trabalho, uma catástrofe natural, um assalto, uma situação de guerra, um ataque terrorista, uma violação etc. Um trauma existencial leva, portanto, uma pessoa ou um grupo de pessoas a uma situação que ameaça a sua própria vida. O indivíduo pode ultrapassar essa situação, com muita sorte, sem danos corporais, ou pode ficar com feridas corporais graves.

As testemunhas de um tal acontecimento também podem sofrer um trauma existencial. O presenciar da situação traumática deixa muitas vezes marcas profundas na psique das testemunhas. Só nos últimos tempos é que se dá mais importância ao facto de as equipas de salvação poderem sofrer também traumatizações psíquicas profundas pela confrontação com as vítimas, os mortos e feridos.

Num trauma de perda uma pessoa perde algo que lhe é muito valioso e insubstituível. Isso pode consistir em:

— bens materiais (p. ex. a perda da casa num incêndio ou por necessidade de fugir da sua terra),

— partes e áreas funcionais do próprio corpo (p. ex. perda de um dedo num pianista),

— perda de uma pessoa por separação (p. ex. perda de pai ou mãe por divórcio ou de um parceiro por separação; separação de pais e filhos numa situação de guerra),

— perda de uma pessoa por morte (p. ex. quando pais, irmãos ou parceiro morrem cedo),

— perda de pertença a um sistema de vinculação psíquica (p. ex. quando uma criança é posta num lar ou entregue a pais adoptivos; quando pessoas são exilados da sua terra; quando pessoas têm que deixar o seu país para poderem sobreviver).

Diferentes traumas de perda têm diferentes efeitos de intensidade. Em geral, uma perda material é ultrapassada melhor e mais rapidamente que a perda de uma pessoa amada. A dificuldade nestes traumas é que a alma vive, depois da perda, como num estádio intermédio. Não consegue agarrar ou substituir o que se perdeu nem separar-se definitivamente.

Falo de um trauma de vinculação quando uma pessoa é magoada psíquica e, muitas vezes também, fisicamente por uma pessoa com quem está ligada intimamente a nível da alma e de quem depende. Tomemos o exemplo da relação de uma criança com um adulto. Aí, uma criança é tratada, p. ex., pela sua mãe, pelo pai, pelos avós, por outros familiares, pais ou educadores de maneira que a sua dependência psíquica é abusada. A pessoa mais forte vive na criança os seus próprios conflitos psíquicos e traumatizações e satisfaz as suas necessidades não realizadas na criança indefesa. A dependência da criança é abusada, a sua confiança explorada emocionalmente. Dependendo da profundidade do vínculo psíquico, da intensidade da relação, da idade da criança, do tipo do abuso emocional e corporal, e de possíveis experiências de violência, o trauma tem consequências mais ou menos profundas para a criança.

Os adultos também podem viver um trauma de vinculação. Através do seu amor para um homem ou para uma mulher, um se torna psiquicamente dependente do outro. Mesmo na situação em que um deles é magoado ou humilhado pelo outro, mantem-se vinculado à relação. Assim, é frequente mulheres não conseguirem separar-se de um parceiro violento e regressam à relação, também de uma casa-abrigo para mulheres espancadas. Parece que agressões que provocam medo têm mais tendência de fortalecer um vínculo do que dissolvê-lo. Uma mulher espancada, p. ex., no seu medo de ser batida de novo, não consegue ver nenhuma alternativa à relação com esse homem.

Num trauma de vinculação, e apesar das contínuas humi-lhações, uma pessoa não consegue sair pela sua própria força da relação que a prejudica a nível da alma. As causas psíquicas deste vínculo indissolúvel podem ser muito complexas. Num trauma de vinculação os papéis de vítima e agressor alternam muitas vezes. Quando um quer separar-se o outro segura-o, e vice versa. Medos de separação, medo de perda do amor, dependência sexual, ameaças e manifesta violência como dependências materiais criam uma confusão de motivos e condições na medida em que duas pessoas não conse-guem separar-se apesar de sempre voltarem a magoar-se mutuamente a nível psíquico e físico.

Se dois grupos de pessoas, p. ex. duas etnias diferentes, estão ligados a nível geográfico, não se podendo evitar, estamos em presença de um trauma de vinculação em grandes grupos. Neste caso, nenhum dos povos pode dominar ou afastar o outro. Vivem, portanto, lado a lado num estado contínuo de inimizade. Exemplos disso são israelitas e palestinianos, curdos e turcos, bascos e espanhóis. Mesmo se, nessas situações, existe muitas vezes um grupo dominador, o grupo dominado demonstra sempre de novo a sua impotência através do terror.

Num trauma de vinculação sistémica não se trata só de indivíduos ou do vínculo de uma pessoa para outra mas da existência de todo um sistema de vinculação psíquica. O trauma diz respeito ao sistema de vinculação como um todo. Danifica-o gravemente enquanto sistema.

A nível da família significa que certos acontecimentos têm a força de pôr em questão as bases para o vínculo psíquico do casal, de pais e filhos e assim como entre gerações. O vínculo familiar e o sentimento de pertença estão em risco podendo, em caso extremo, ser extintos. Mais à frente explicarei em pormenor quais são esses acontecimentos e porque eles – ou a sua tabuização e negação – representam, a meu ver, a base para as perturbações psicóticas de pessoas pertencentes a essas famílias.

A nível de sistemas de vinculação maiores também existem traumas de vinculação sistémica no sentido atrás referido. Os conquistadores que ocupavam um país estrangeiro sabiam desde sempre como provocar um trauma de vinculação sistémica nos indígenas que queriam dominar: Era preciso tirar o poder aos seus chefes e humilhá-los, e destruir os símbolos religiosos da sua identidade colectiva. Guerras, guerras civis, genocídio, deslocações étnicas representam para essas comunidades traumas de vinculação sistémica. É-lhes tirada a base da sua pertença colectiva e, assim, da sua vida em comum. Vamik Volkan fala, no caso de traumas em grandes grupos, de “acontecimentos comuns nos quais um grupo sofreu perdas, se sentiu sem amparo, foi oprimido por outro grupo e teve que sofrer uma humilhação colectiva”. (V. D. Volkan, Borderline-Psychopathologie und internationale Beziehungen, in: Kernberg, O.; Dulz, B.; Sachsse, U. (ed.): Handbuch der Borderline-Stoerungen, p. 819-828, Stuttgart 2000: Schattauer). (pp. 130-34).

 

Traumas
existenciais

Traumas
de perda

Traumas
de vinculação

Traumas de vinculação sistémica

     
Padrões de sintomas de traumatização psíquica
     
Percebemos a vida de frente para trás,
mas temos que vivê-la de trás para a frente

Søren Kierkegaard
     
Esboço de uma psicotraumatologia sistémica    
     

Conflitos psíquicos como consequências de um trauma. Se distinguirmos as consequências de um trauma para determinada pessoa conforme os tipos de traumas referidos anteriormente pode-se prever que tipos de sintomas têm maior probabilidade em se manifestarem (ver tabela em baixo).

Num trauma existencial o medo ocupa o primeiro plano. Desenvolvem-se medo e pânico, “fobias” condicionadas pelas características da situação de trauma, às vezes também pensamentos e acções obsessivas. Obsessões são, nesta perspectiva, rituais mágicos para lidar com o medo da morte e a ameaça de aniquilação. Neste tipo de traumas, há pessoas que são extremamente activas e que se ocupam às vezes mecanicamente para estarem sempre ocupadas conseguindo, assim, não voltar a sentir o medo da morte. Também existem pessoas interiormente traumatizadas que estão como paralizadas porque experiencia