O sentido dos sintomas – As psicoses
são, na minha terminologia, expressões de formas graves
de uma perturbação psíquica. No meu livro Verwirrte
Seelen (Almas Confusas) apresentei pela primeira vez mais em pormenor
o conceito básico de uma “Psicotraumatologia Sistémica” (Ruppert,
2002). Ao contrário da doutrina psiquiátrica, entendo que
os sintomas psicóticos também têm uma interpretação
a nível psicológico. Ou seja, são sintomas que se
referem a um contexto psíquico real do passado mas esse contexto
não tem evidência no presente . Nesta medida as psicoses
são formas ajustadas de expressão psíquica que nos
remetem para a questão: em que contexto situacional um estado
psicológico alterado surge como a única reacção
possível da psique humana a uma experiência de vida?
Ilse Kutschera e Christine Schaeffler partilham esta
perspectiva de interpretar sintomas de doenças como reacções
ajustadas a situações de exigência excessiva, na
história de vida da pessoa: “Estou convencida que se pode
encontrar um sentido para cada sintoma e cada doença. Este sentido,
no entanto, não é válido para o geral, mas nasce
no contexto da situação do paciente e das suas relações
no sistema.” (Kutschera, Schaeffler, 2002, p.22). Úrsula
Franke exprime-se de maneira parecida: “Podemos considerar os sintomas
como padrões precoces e marcantes de reacção a situações
difíceis e temos só que perceber em que situação
o sintoma estava apropriado ou teria sido apropriado. Esta situação
pode pertencer ao próprio passado biográfico do paciente,
ou ao passado de um elemento do seu sistema familiar.” (Franke,
2002, p.109)
Segundo a minha experiência com muitos pacientes
que têm feito comigo terapias longas, também os sintomas
de doenças psíquicas graves (medos, depressões,
obsessões, dependências...) incluindo psicoses, representam
uma “tentativa de solução” de um conflito psíquico.
Por um lado, protegem a pessoa de mais dores psíquicas e sentimentos
insuportáveis. Por outro bloqueiam ao mesmo tempo o seu crescimento
psíquico. Congelam o desenvolvimento num estado momentâneo
e fixam as pessoas em determinados comportamentos, como reacção
a estados que experienciam como ameaçadores. Nesta perspectiva,
o que ajuda na terapia é unicamente a compreensão das funções
específicas de protecção desses sintomas. A importância
do sintoma tem que ser reconhecida e valorizada. É só quando,
através de um processo terapêutico que lide com os sintomas
resultantes das ameaças vividas que se pode criar uma alternativa
ao padrão existente. Assim, os sintomas podem “iniciar a
sua retirada” deixando espaço para que surja uma forma mais
madura de gerir o conflito psíquico.
Trauma psíquico – A palavra trauma significa
ferida. Neste sentido fala-se na medicina por ex. de um traumatismo craniano.
Transferindo este conceito ao nível psíquico podemos falar
também de uma ferida psíquica quando os processos psíquicos
tais como: percepção, sensação, pensamento,
memória, imaginação, etc., já não
funcionam normal e saudavelmente. Exemplos: uma pessoa está concentrada
e assusta-se com um ruído e fica banhada em suor de medo ou os
pensamentos de alguém estão continuamente fixados num determinado
acontecimento; ou ainda alguém que já não se consegue
lembrar-se de determinados acontecimentos importantes.
Quero referir como exemplos para as causas de um trauma
psíquico: acidentes graves (de carro, de comboio, queda de uma
avião...), tortura, situações de guerra, violência
sexual, etc. Na investigação do trauma costuma-se distinguir
dois tipos de situações traumáticas:
— Trauma de tipo 1: acontecimentos que surgem súbita e
inesperadamente.
— Trauma de tipo 2: situações longas,
de exigência excessiva e em que existe sentimento de impotência.
No trauma existe uma diferença fundamental entre,
por um lado, a exposição a uma ameaça e a perturbação
emocional daí derivada e, por outro, as possibilidades de acção
da pessoa para se proteger. O observador do trauma de outras pessoas
pode também ficar psiquicamente traumatizado (Fischer, Riedesser,
1999).
A partir do trabalho prático com os pacientes
torna-se cada vez mais claro para mim que, no fundo, não há doenças
psíquicas graves sem um trauma subjacente. Tentei, assim, sistematizar
os acontecimentos traumáticos e distingo agora, quatro formas
de traumas:
— Traumas existenciais: situações
de vida e morte (p. ex. em situações de catástrofes
ou de guerra).
— Traumas de perda: quando uma pessoa
sofre a perda de um vínculo psíquico muito importante para
ela (p. ex. morte da mãe de uma criança)
— Traumas de vinculação:
a necessidade de vínculo de uma pessoa é traumatizada,
pelo que não pode mais entregar-se emocionalmente a vínculos
humanos (p.ex., abuso da filha pelo próprio pai);
— Traumas de vinculação sistémica:
nestes casos todo um sistema de vinculação (p. ex. uma
família) é traumatizado por determinados acontecimentos
(incesto ou assassinato de um familiar).
Podemos de uma forma geral relacionar os sintomas de
doenças psíquicas graves com as diferentes formas de traumas:
— Nos traumas existenciais encontramos muitas
vezes medos intensos e perturbações de pânico (Ruppert,
2001a).
— Nos traumas de perda encontramos, na maior parte
das vezes, depressões graves.
— Nos traumas de vinculação constatamos
comportamentos sintomáticos que são diagnosticados na psiquiatria
clínica como distúrbios borderline da personalidade.
— Traumas de vinculação sistémica
relacionam-se, conforme a minha experiência, com estados de perturbação
psicótica.
A superação de um trauma através
de sintomas tem duas tarefas a cumprir:
— Primeiro tem que se estabelecer uma distância
em relação à vivência traumática.
— Depois tem que encontrar uma regra de sobrevivência
para a pessoa não voltar a entrar numa situação
traumática.
A resposta automática de emergência, na
sobrevivência do trauma, dissocia as percepções,
os sentimentos e os pensamentos e reduz assim, a energia do trauma (Ruppert,
2001b, p. 48 sg.). A dissociação da memória do trauma
permite que a percepção consciente e o pensamento fiquem
livres para assegurar a sobrevivência. As emoções
provocadas pelo trauma são afastadas da memória consciente.
Mas mesmo estando separadas das ligações nervosas que regulam
a consciência de vigília elas ficam armazenadas nas camadas
inferiores do cérebro, sobretudo nas células que estão
em contacto neuronal e hormonal com as regiões do sistema límbico
e do cerebelo.
Assim, o traço de memória do trauma continua
a existir no corpo todo ou em partes dele, e funciona como uma bomba-relógio
psíquico, com o seu tic-tac próprio.
No entanto, numa situação que se pareça
com a situação traumática original se a “camada
de defesa” se tornar demasiado fina e não conseguir evitar
que o trauma penetre nas estruturas cerebrais mais desenvolvidas do neocórtex
e na memória consciente, então existe o perigo de que a
vivência da situação actual se misture com a vivência
traumática antiga e os sentimentos saiam de novo totalmente do
controlo.
Um trauma acontece sempre num contexto social. Na maior
parte das vezes existem vítimas principais e um número
maior de pessoas que, embora feridas menos profundamente em termos psíquicos,
sofrem muitas vezes de forma grave as consequências de um trauma
(p. ex. uma família que recebe um soldado traumatizado na guerra)
(Stricevic, 2002).
Sistemas de menor vinculação (p. ex. famílias)
podem ser tão traumatizados como os sistemas maiores (etnias,
povos, nações).
A noção limitada e reduzida existente
sobre o trauma e as pessoas dele directamente afectadas,( como acontece
no Distúrbio do Stress Pós-Traumático PTSD), é insuficiente
tanto para a compreensão dos acontecimentos traumáticos
como para a sua transformação duradoura.
“A traumatização psicossocial implica feridas que
não podem ser enfrentadas unicamente através da psicoterapia.
As ofertas de apoio têm que incluir sempre uma iniciativa dirigida
para as causas das feridas. De facto, se as condições políticas
não são consideradas, o risco de qualquer trabalho psicoterapêutico
não ter efeito é grande.” (Heckl, 2003)
O conceito individualizado de trauma também não
ajuda a perceber a sintomatologia psicótica. Neste caso, são
de excluir as situações traumáticas em que uma pessoa
que se tornou psicótica pode ela própria ser ferida gravemente
a nível psíquico É por isso que, até hoje,
todas as tentativas da psicologia de explicar as psicoses e de as tratar
com sucesso pela psicoterapia, têm dado poucos ou nenhuns resultados.
Depois de muitas tentativas teóricas infrutíferas
na solução deste enigma só as constelações
familiares me indicaram uma pista que se tem revelado cada vez mais válida:
num sistema de vinculação psíquica os traumas parecem
ser passados de geração em geração. Nomeadamente
as memórias traumáticas dissociadas são entregues
aos descendentes, de forma inconsciente, como uma herança muda.
Estas memórias perduram por três ou quatro gerações
e têm uma influência significativa na psique individual de
uma pessoa, mesmo se ela nascer só dezenas de anos depois do acontecimento
traumático ter sucedido.
Vínculo psíquico através
de gerações – O método da constelação
familiar torna visível como os seres humanos estão ligados
em sistemas de vinculação e emocionalmente dependentes
uns dos outros de muitas formas. Mostra o caminho que sobretudo os
sentimentos e pensamentos difíceis tomam no interior de um sistema
plurigeracional.
Distingo os conceitos de relação e
de vínculo. Há relações em que não
existem vínculos emocionais verdadeiros (p. ex. quando um homem
e uma mulher vivem juntos sem terem sentimentos um pelo outro) e noutras
há vínculos apesar de não existir nenhuma relação
real (p. ex. quando alguém tem uma forte ligação
a um parceiro anterior, talvez até já falecido). Vínculos
fortes e em parte indissolúveis são criados sobretudo pela
descendência biológica (nomeadamente os vínculos
mãe-filho, pai-filho e entre irmãos) e pela sexualidade
(vínculo entre parceiros). Os vínculos são caracterizados
por sentimentos fortes como amor, medo, raiva, orgulho, vergonha ou culpa.
Os vínculos estabelecem-se, regra geral, sem um esforço
consciente das pessoas em questão. Acontecem. Uma vez estabelecidos
oferecem resistência à sua dissolução. A possível
perda de um vínculo provoca medo. Os vínculos estão
protegidos contra a sua dissolução arbitrária pelo
facto de a separação criar uma dor forte. A dimensão
da dor provocada pelo soltar do vínculo é um sinal da força
desse mesmo vínculo.
É através dos vínculos que se estabelecem
as estruturas básicas transgeracionais da convivência humana.
Sem vínculos não haveria grupos humanos maiores. Provavelmente
não haveria o que chamamos fraternidade. Podemos constatar também
em animais formas de comportamento e de vida baseados em vínculos.
Para realçar a qualidade específica da
ligação entre seres humanos escolhi a noção vínculo
de alma. O conceito de alma tem grande importância na história
cultural e filosófica humana (Hinterhuber, 2001). A alma, em todas
as religiões e filosofias tem a função de colocar
questões sobre a origem da vida, da existência específica
do ser humano no mundo e daquilo que resta de uma pessoa depois da sua
morte biológica.
Defino a alma como aquela força que
liga o que pertence a um grupo de seres e o delimita de outro. Uma alma
comum inclui assim, conjuntos de seres humanos e delimita-os. Cria o
sentimento de pertença. Cada pessoa participa na alma comum do
seu grupo com os seus sentimentos. Assim a alma é parte de cada
elemento do grupo mas também é um fenómeno sobre-individual. O
relacionamento de cada elemento com o respectivo grupo influencia os
seus membros na sua percepção, sentir,
pensar, imaginar e lembrar. A alma significa, neste sentido, também
partilhar sentimentos. Sobretudo as crianças absorvem na sua própria
psique os sentimentos dos pais.
Segundo Hellinger o sentimento e a necessidade de pertença
são, por seu lado, a base da consciência (Hellinger, 2002,
p. 210 seg.). A consciência orienta comportamentos elementares
na base dos sentimentos de culpa e inocência. Favorece assim, a
troca entre membros de um conjunto de pessoas e regula o dar e o receber
e também o respeito por certas ordens básicas em grupos. É grande
mérito de Hellinger ter percebido e formulado tão claramente
a relação entre vínculo e consciência e de
chegar, assim, à compreensão profunda de culpa e inocência.
Pela relação no grupo estabelece-se uma compreensão
de bem e de mal, de certo e de errado. A verdade e a moral são,
nas suas formas originais, relacionadas com o grupo e, portanto, relativas.
O que num grupo é considerado bom e correcto pode ser considerado
mau e errado noutro. Devido à sua pertença a grupos os
seres humanos pensam naturalmente em termos ideológicos e consideram-se
em geral melhores que os elementos de um outro grupo.
Quem faz parte de um grupo tem direito a uma protecção
especial no seu seio. Não pode ser excluído. Por causa
da importância desse vínculo na sua vida e na sua sobrevivência,
a exclusão de uma pessoa pelo seu grupo tem uma qualidade traumática.
Como os vínculos não se dissolvem automaticamente pela
morte e como todos nós tememos a exclusão do grupo continuamos
a dar aos mortos, por muito tempo, um lugar na alma do grupo.
Em quase todas as culturas as pessoas passam muito tempo a lembrar os
seus mortos. |